O Brasil Parou de Dançar
Há uma foto da final da Copa do Mundo de 2002 que todo brasileiro de uma certa idade consegue descrever de memória. Ronaldo — o Ronaldo de verdade, o Fenômeno — se afastando de Oliver Kahn com os braços abertos, o número 9 estampado em sua camisa amarela.
Publicado: June 6, 2026

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# O Último Tango de Ancelotti: O Brasil Consegue Encerrar o Jejum de 24 Anos?
Existe uma fotografia da final da Copa do Mundo de 2002 que todo brasileiro de uma certa idade consegue descrever de memória. Ronaldo — o Ronaldo verdadeiro, o Fenômeno — se afastando de Oliver Kahn com os braços abertos, o número 9 na camisa amarela, o céu noturno de Yokohama ao fundo. Foi a última vez que o Brasil venceu uma Copa do Mundo. Vinte e quatro anos depois, a fotografia adquiriu o tom sépia da história, e a nação que produziu Pelé, Garrincha, Zico, Romário e os dois Ronaldos — a nação que venceu o torneio cinco vezes, mais do que qualquer outro país — passou quase um quarto de século vendo outros levantarem o troféu que um dia foi considerado direito de nascença brasileiro.
Entra Carlo Ancelotti, no que pode se provar o casamento mais notável entre técnico e seleção desde... bem, desde sempre. Ancelotti não é brasileiro. Ele é, no sentido mais estereotipado, o oposto: um italiano do norte da Emilia-Romagna cuja persona pública — a sobrancelha levantada, o meio sorriso calmo, o ar de um homem que já viu de tudo e não se surpreende com nada — está tão distante da energia carnavalesca da cultura do futebol brasileiro quanto possível. E, no entanto, a Confederação Brasileira de Futebol, em uma das decisões mais consequentes de sua história, escolheu Ancelotti para liderar a Seleção na Copa do Mundo de 2026, apostando que o técnico de clubes mais vitorioso da história da Liga dos Campeões poderia traduzir sua habilidade alquímica de gerenciar superestrelas para um contexto onde os craques vestem a mesma camisa amarela e carregam nos ombros o peso da autoimagem de uma nação.
A lógica da nomeação é mais fácil de entender do que a psicologia. O maior dom de Ancelotti — a qualidade que lhe permitiu vencer títulos de liga na Itália, Inglaterra, França, Alemanha e Espanha, vencer a Liga dos Campeões quatro vezes como técnico, e comandar o respeito de jogadores tão variados em temperamento quanto Zlatan Ibrahimovic, Cristiano Ronaldo e Luka Modric — é sua capacidade de gerenciar egos sem suprimi-los. Ele não exige que os jogadores subordinem suas personalidades a um sistema; ele constrói sistemas que acomodam personalidades. Isso, no contexto da seleção brasileira, não é meramente uma vantagem, mas uma necessidade. A Seleção sempre foi uma coleção de indivíduos, e os técnicos que tiveram sucesso — Telê Santana em 1982, mesmo sem vencer o torneio, e Luiz Felipe Scolari em 2002 — entenderam que a genialidade do futebol brasileiro reside não na disciplina coletiva, mas na libertação da expressão individual dentro de uma estrutura frouxa o suficiente para acomodá-la.
Os jogadores que Ancelotti herda são, por qualquer medida razoável, a geração brasileira mais talentosa desde o grupo que venceu o torneio de 2002. Vinicius Junior é o ponta-esquerda mais devastador do futebol mundial, um jogador cuja combinação de velocidade, habilidade técnica e instinto goleador o tornou o ponto focal do ataque do Real Madrid e o herdeiro aparente da linhagem de camisas 7 brasileiras que vai de Garrincha passando por Jairzinho até Bebeto. Rodrygo, companheiro de clube de Vinicius, é um tipo diferente de talento — menos explosivo, mais cerebral, um jogador cujo movimento e inteligência espacial lhe permitem encontrar espaços em áreas lotadas com uma intuição que não pode ser ensinada. E então há Endrick, o jovem de 18 anos que foi ungido como o próximo grande centroavante do Brasil desde os 15, e cuja combinação de força física e refinamento técnico em uma idade em que a maioria dos jogadores ainda está aprendendo a fazer a barba justifica pelo menos parte das expectativas messiânicas que se ligaram ao seu nome.
O meio-campo apresenta a Ancelotti um quebra-cabeça mais complexo. Bruno Guimarães, o metrônomo do Newcastle United, oferece a amplitude de passes e a intensidade defensiva que qualquer meio-campo equilibrado exige, mas a identidade de seu parceiro — ou parceiros, dependendo da formação — é menos certa. Lucas Paquetá, quando sua cabeça está no lugar e sua situação fora de campo está resolvida, oferece a ligação criativa entre meio-campo e ataque que o Brasil tem sentido falta em torneios recentes. Joelinton, companheiro de clube de Bruno Guimarães no Newcastle, proporciona uma dimensão física que nenhum outro meio-campista brasileiro pode igualar — o tipo de poder de condução de bola por áreas centrais que pode quebrar linhas defensivas de maneiras que apenas o passe não consegue. E então há a interminável linha de produção brasileira de volantes de construção, a tradição do volante que remonta a Didi e Clodoaldo, agora representada por jogadores como André Trindade e João Gomes, que podem forçar entrada nos planos de Ancelotti antes do torneio começar.
A unidade defensiva é, historicamente, onde as campanhas brasileiras de Copa do Mundo foram ganhas ou perdidas. As grandes seleções brasileiras — 1958, 1970, 1994, 2002 — todas possuíam fundamentos defensivos que foram negligenciados em favor do brilhantismo ofensivo que definiu sua imagem pública, mas que foram essenciais para seu sucesso. O Brasil de Ancelotti será construído em torno de Marquinhos, o zagueiro do Paris Saint-Germain cuja excelência silenciosa nunca recebeu o reconhecimento internacional que merece, e Éder Militão, cuja velocidade de recuperação e presença física o tornam o parceiro ideal para a abordagem mais cerebral de Marquinhos. As posições de lateral, outrora as posições mais distintivamente brasileiras em campo — pense em Cafu e Roberto Carlos em 2002, em Carlos Alberto em 1970 — são agora ocupadas por jogadores cuja excelência é mais ortodoxa: quem quer que surja da competição entre Danilo, Vanderson e as opções de retorno disponíveis para Ancelotti.
A posição de goleiro merece um parágrafo próprio, porque representa talvez a evolução mais significativa na cultura do futebol brasileiro no último quarto de século. Alisson Becker e Ederson não são apenas dois dos melhores goleiros do mundo; eles são dois dos melhores goleiros da história do futebol brasileiro, e seu surgimento simultâneo transformou uma posição que antes era considerada a fraqueza perene do Brasil em uma posição de força incomparável. A competição entre eles — Alisson o mais completo em defesas, Ederson o melhor distribuidor — dá a Ancelotti uma dor de cabeça de seleção que a maioria dos técnicos de seleções invejaria, e significa que o Brasil entrará no torneio de 2026 com a melhor situação de goleiros de qualquer equipe na competição.
A questão que paira sobre todo esse talento é a mesma que paira sobre toda seleção brasileira desde 2002: ela consegue sobreviver à pressão psicológica de uma campanha de Copa do Mundo em que qualquer coisa menos que a vitória é tratada como catástrofe? O Brasil é a única nação para a qual vencer a Copa do Mundo não é uma aspiração, mas uma expectativa, e o peso dessa expectativa já esmagou seleções brasileiras mais talentosas do que esta. O time de 2006, com o "Quarteto Mágico" de Ronaldinho, Kaká, Ronaldo e Adriano, foi eliminado nas quartas de final por uma França que era favorita a perder. O time de 2010, construído em torno de Kaká e Luís Fabiano, desabou contra a Holanda depois de abrir vantagem cedo. O time de 2014, jogando em casa, sofreu a derrota mais traumática da história do futebol brasileiro — o 7 a 1 na semifinal contra a Alemanha que continua sendo uma ferida aberta na psique nacional. Os times de 2018 e 2022, ambos talentosos e bem organizados, foram eliminados por Bélgica e Croácia, respectivamente, em partidas que poderiam ter vencido e não venceram.
A presença de Ancelotti aborda esse padrão de baixo desempenho de maneiras que são difíceis de quantificar, mas impossíveis de ignorar. Ele passou sua carreira gerenciando expectativas em clubes onde vencer não é uma ambição, mas uma obrigação — Milan, Chelsea, Real Madrid — e seu temperamento, aquela calma imperturbável que sobreviveu a demissões e triunfos com igual equanimidade, pode ser exatamente o que o Brasil precisa para navegar a pressão psicológica de uma Copa do Mundo. Ele não entrará em pânico se o Brasil sofrer o primeiro gol. Ele não reagirá exageradamente a uma fase de grupos ruim. Ele não permitirá que o barulho externo — e o barulho externo em torno da seleção brasileira é mais alto do que em torno de qualquer outra equipe no futebol mundial — penetre a bolha de calma que ele passou quatro décadas cultivando.
Se isso é suficiente para encerrar o jejum de 24 anos é uma pergunta que não pode ser respondida antecipadamente. O torneio de 2026 contará com uma oposição formidável: uma França buscando uma terceira final consecutiva de Copa do Mundo, uma Inglaterra cujo pool de talentos rivaliza com o do Brasil, uma Argentina liderada por um Lionel Messi que terá 39 anos, mas que desafiou todas as previsões de declínio. Mas o Brasil sob Ancelotti não irá para a Copa do Mundo esperando vencer. Eles irão esperando vencer, e a diferença entre esperança e expectativa é a diferença que 24 anos de espera inscreveram na alma do futebol brasileiro. Ancelotti não pode apagar essa história. Mas ele pode escrever um novo capítulo, e ele passou sua carreira provando que a pessoa mais calma na sala é muitas vezes a mais perigosa.

