Alemanha vs Equador
South Africa and South Korea have never played each other in men's international football. In a century of the sport, across all competitions and all continents
Publicado: June 6, 2026

# África do Sul vs Coreia do Sul: Um Jogo Que Nunca Aconteceu, e O Que Isso Nos Diz
## Zero
África do Sul e Coreia do Sul nunca se enfrentaram no futebol masculino internacional. Em um século do esporte, em todas as competições e todos os continentes, essas duas nações nunca dividiram o mesmo gramado.
Em uma era saturada de dados, em que qualquer confronto entre seleções pode ser instantaneamente pesquisado por histórico de duelos, "zero" é um número fascinante. Significa que não há precedentes. Nenhum roteiro. Nenhum padrão de confrontos que analistas possam extrair dos arquivos. Em 24 de junho, no Estadio BBVA, em Monterrey — 53.500 lugares, esculpido no coração industrial do nordeste do México — duas equipes entrarão em campo sabendo quase nada uma sobre a outra.
Mas zero também é um número perigoso. Traz à mente uma frase de Eduardo Galeano em "Futebol ao Sol e à Sombra": "A história do futebol é uma triste viagem do belo ao dever." Os zero encontros entre África do Sul e Coreia do Sul são uma ilusão — porque as trajetórias futebolísticas dessas duas nações, na verdade, têm corrido em uma simetria impressionante.
## Solidões Paralelas
A história do futebol sul-coreano no contexto da Copa do Mundo é sempre reduzida a um único número: 2002. Naquele ano, em casa, em meio a decisões de arbitragem controversas que ainda agitam conversas duas décadas depois, os Taeguk Warriors de Hong Myung-bo chegaram às semifinais da Copa do Mundo. Continua sendo o maior feito da história do futebol asiático, um marco que nenhuma nação asiática desde então conseguiu alcançar — e um fantasma que o futebol sul-coreano não conseguiu exorcizar por 24 anos. Cada geração de jogadores coreanos ouve a mesma pergunta: vocês conseguem fazer de novo? A resposta, até agora, tem sido um silêncio prolongado.
O futebol sul-africano tem um momento totêmico comparável, mas invertido. Em 2010, tornaram-se a primeira nação africana a sediar uma Copa do Mundo — e o primeiro país-sede a ser eliminado na fase de grupos. Aquela partida de abertura contra o México — o chute trovejante de Siphiwe Tshabalala, aquela comemoração icônica de dança — continua sendo a imagem mais vívida na memória sul-africana de Copas do Mundo. Mas eles nunca mais voltaram ao torneio, até que Hugo Broos assumiu o comando em 2022 e começou uma revolução silenciosa, quase despercebida.
As trajetórias formam um paradoxo simétrico: a Coreia do Sul atingiu uma altura improvável em casa e desde então tem sido esmagada por expectativas inatingíveis; a África do Sul sofreu uma humilhação improvável em casa e desde então foi esquecida nas margens da Copa do Mundo. Em 2026, em Monterrey, essas duas linhas finalmente se cruzam.
## O Plano Broos
Hugo Broos é um homem interessante. Belga, na casa dos setenta anos, sem filtro em seus discursos — seu primeiro ano no comando da África do Sul foi marcado por controvérsia depois que ele criticou publicamente o nível do campeonato doméstico. Mas quatro anos depois, ninguém questiona seus resultados: ele construiu a equipe mais sólida defensivamente nas eliminatórias africanas, uma equipe que sabe exatamente quem é e não finge ser outra.
O sistema de Broos se baseia em um paradoxo central: uma equipe priorizando a defesa que possui dois dos atacantes jovens mais empolgantes da África. Oswin Appollis (Orlando Pirates) foi o driblador e criador mais eficaz de Bafana nas eliminatórias — não um nome que é repetidamente mencionado nas conversas das primeiras divisões europeias, mas no futebol africano, sua capacidade de cortar para dentro e finalizar o destaca em um sistema taticamente descomplicado. O jovem de 21 anos Relebohile Mofokeng (Orlando Pirates) é um tipo diferente de talento: um camisa 10 tradicional, destemido, cujo controle de bola em espaços apertados evoca memórias de um jovem Jay-Jay Okocha — não porque seus estilos sejam semelhantes, mas porque compartilham aquela qualidade de "não sei o que vou fazer a seguir, e o defensor sabe menos ainda."
Mas o problema de gols da África do Sul é real. O histórico de Lyle Foster (Burnley) na Inglaterra é preocupante, e a amostra de Iqraam Rayners (Mamelodi Sundowns) em nível internacional é pequena demais para tirar conclusões. O sistema de Broos pode manter a África do Sul viva nas partidas, mas vencê-las depende de converter um pequeno número de chances — uma questão que ficará mais clara após os jogos contra México e República Tcheca.
## A Última Chance de Hong
A situação da Coreia do Sul é totalmente diferente. O problema deles não é criatividade — Son Heung-min, Lee Kang-in, Hwang Hee-chan e Hwang In-beom, a produção criativa desses quatro supera qualquer outra coisa no grupo. O problema deles é estrutura.
A aposta de Hong Myung-bo na linha de três defensores enfrentará seu exame mais rigoroso após as duas primeiras partidas. Se a Coreia do Sul expôs o espaço atrás de seus alas contra República Tcheca e México — o que parece quase certo — então a partida contra a África do Sul representa sua última oportunidade de provar que este sistema não é um erro catastrófico.
Vale lembrar quem é Hong Myung-bo. Ele foi o maior defensor da história do futebol sul-coreano. Capitão das equipes da Copa do Mundo de 1994 e 2002, seu entendimento de organização defensiva deveria ser mais profundo que o de qualquer técnico coreano. Seu fracasso na Copa do Mundo de 2014 — um empate, duas derrotas na fase de grupos — é a maior mancha em seu currículo como treinador, e 2026 pode ser sua última chance de apagá-la.
## O Jogo Dentro do Jogo: Appollis vs o Lado Direito da Coreia
Se a África do Sul quiser vencer esta partida, sua ameaça ofensiva quase certamente se concentrará no flanco esquerdo. Appollis cortando para dentro a partir da ponta esquerda, combinado com as investidas sobrepostas do lateral-esquerdo Aubrey Modiba (Mamelodi Sundowns), representa o que Broos identificou como o "corredor ofensivo principal" da equipe. Isso ataca diretamente a zona mais vulnerável do 3-4-3 da Coreia do Sul — o canal entre o ala direito (provavelmente Jens Castrop) e o zagueiro central do lado direito, um espaço que foi explorado repetidamente nos amistosos de pré-torneio contra Brasil e Costa do Marfim.
Se Hong tiver autoconsciência suficiente para reverter para uma formação mais conservadora — um 4-2-3-1, por exemplo, com Seol Young-woo retornando à sua função natural de lateral-esquerdo — a Coreia do Sul estará muito mais bem equipada para conter Appollis. Mas se ele persistir com o 3-4-3, esta partida pode se tornar a atuação de destaque de Appollis no palco global.
## Previsão
Esta é a partida mais difícil de prever no Grupo A, em parte porque essas equipes nunca se enfrentaram, e em parte porque seus riscos só podem ser totalmente compreendidos após as duas primeiras rodadas de jogos serem concluídas. Se a Coreia do Sul já tiver conquistado pontos suficientes contra República Tcheca e México, Hong pode reverter para seu sistema defensivo mais familiar e controlar a partida com segurança. Se a África do Sul precisar de uma vitória para avançar, Broos pode ser forçado a fazer o que menos gosta: empurrar sua equipe para frente no ataque.
Em um mundo ideal, esta partida seria a dança de despedida de Son Heung-min na Copa do Mundo — um torneio que não saiu exatamente como planejado, salvo por um gol e uma assistência no último jogo da fase de grupos que leva sua nação adiante. Mas os mundos ideais do futebol raramente coincidem com a realidade.
Previsão: Coreia do Sul 2-1 África do Sul. Mofokeng cria uma vantagem surpresa para a África do Sul no primeiro tempo, mas Son empata com um tiro livre no segundo, e Hwang Hee-chan marca o gol da vitória em um contra-ataque aos 82 minutos — a Coreia do Sul avança para a fase eliminatória.

