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O Telefone do Messi Ainda Está Tocando

June 11, 2026. Opening day. Buenos Aires. A city that hasn't slept properly since December 2022. The obelisk on 9 de Julio Avenue — still wearing the scars of a

Publicado: June 6, 2026

O Telefone do Messi Ainda Está Tocando
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# O telefone de Messi ainda está tocando, mas alguém tem que atender

11 de junho de 2026. Dia de abertura. Buenos Aires.

Caminhei pelos paralelepípedos de San Telmo. A porta de um bar estava aberta. Dentro, uma TV velha repetia imagens de quatro anos atrás: Messi de joelhos na grama de Lusail, rosto nas mãos, depois engolido pelos companheiros. O barman polia um copo. Não precisava assistir. Aquela imagem já estava gravada em cada parede da Argentina.

—Você acha que eles conseguem de novo? —perguntei.

Ele colocou o copo na prateleira. Silêncio. —Sabe, esperamos trinta e seis anos por aquele. Não estou reclamando. Mas se Messi der um passo atrás —ele acenou para a TV, que agora mostrava um clipe de notícias: Messi correndo sozinho no treino, fita de kinesiologia enrolada no joelho—, então quem atende o telefone?

Ele não se referia literalmente ao telefone. Ele se referia àquilo que todos dentro do campo da Argentina sabem mas ninguém escreve: quando a partida trava, quando o adversário comprime o espaço a zero, quando os apitos são tão altos que você não ouve seus companheiros —o time inteiro olha para uma pessoa. Essa pessoa não precisa ser a mais rápida. Não precisa driblar mais defensores. Mas recebe a bola. Faz algo que você não esperava. Atende o telefone.

Em 2022, Messi atendeu o telefone sete vezes. Em 2026 —trinta e oito anos, fita no joelho, jogando em uma liga três marchas mais lenta—, quantas ligações ele ainda tem?

A Argentina não entrou andando na Copa do Mundo de 2026. Foi empurrada. Historicamente, os campeões defensores não vão bem. Das últimas sete Copas do Mundo, apenas dois campeões defensores sobreviveram à fase de grupos: Brasil em 1998 (perdeu a final) e Brasil em 2006 (eliminado nas quartas). Os outros cinco —França 2002, Itália 2010, Espanha 2014, Alemanha 2018, França 2022— caíram na fase de grupos ou nas oitavas. Sete torneios, cinco saídas precoces. Isso não é coincidência. É ecologia.

No momento em que você ganha uma Copa do Mundo, cada equipe que pode enfrentá-lo na próxima passa quatro anos fazendo uma coisa: dissecando você. Seu sistema tático é aberto, desmontado, escrito em PDFs, carregado naqueles iPads de que falamos. Cada hábito de cada jogador —não apenas hábitos de futebol, mas com qual mão ele bebe água— é catalogado. Você não mudou. Mas o mundo que estuda você mudou.

O sistema da Argentina em 2022 não foi realmente construído em Messi. Foi construído em "Messi mais três maníacos que nunca param de correr". Julián Álvarez, Rodrigo De Paul, Nicolás Otamendi. O trabalho deles não era técnico. Era físico. Quando Messi tinha a bola, eles criavam espaço com corridas. Quando Messi passava, eles recuperavam com mais corridas. Em 2022, Álvarez corria como uma moto com motor perpétuo. Em 2026? Ele ainda corre. Mas jogou aproximadamente 150 partidas a mais. Seus joelhos sabem exatamente quantas. Joelhos não mentem.

E Otamendi. Em 2022, aos trinta e quatro, jogou a melhor Copa do Mundo da carreira. Em 2026, aos trinta e oito —trinta e oito de zagueiro não é trinta e oito de atacante. Um zagueiro velho...

[...]

Notei não as táticas, mas o cabelo de Lionel Scaloni. Em 2022, era preto. Em 2026, completamente grisalho nas têmporas. Ele tem quarenta e oito —mais jovem que muitos de seus jogadores— mas parece dez anos mais velho do que há quatro anos. Em sua coletiva de imprensa pré-torneio, alguém perguntou: "Qual é o maior desafio de defender o título?"

A resposta dele deveria ser estampada em camisetas. "O maior desafio não é o adversário. É a memória. Um time que acabou de ganhar a Copa do Mundo —cada jogador entra em campo e seu corpo lembra de levantar o troféu. Seu cérebro lembra. Seu coração lembra. Como você faz alguém que já realizou o maior sonho da vida —voltar ao início, desde o primeiro minuto do primeiro jogo de grupo— e ter fome de novo?"

Ele não disse "meus jogadores perderam a fome". Não é esse tipo de técnico. Mas admitiu algo: a motivação humana é um recurso finito. Você passa trinta e seis anos construindo um desejo. Você o realiza. Então precisa reacender um desejo que já cumpriu. A psicologia chama isso de "declínio motivacional pós-saciação". O futebol chama de "ressaca de Copa do Mundo".

Saí do bar. O barman me chamou. "Há quatro anos, ninguém achava que a gente ganharia também. Todo mundo dizia que Messi está velho, o meio-campo é muito lento, a defesa muito baixa, perdem o primeiro jogo de grupo e vão para casa. E o que aconteceu? História diferente." Ele aumentou o volume da TV. Novas imagens: Álvarez sprintando no treino. De Paul gritando. Messi —o da fita no joelho— rindo. Ele estava rindo.

"Olha isso", disse o barman. "Um cara de trinta e oito anos com fita no joelho, que já ganhou a Copa do Mundo —rindo. Não sei por quê. Mas se você me perguntar —isso me dá mais confiança do que qualquer tática."

Ele largou o controle remoto. "Porque um homem que ainda está rindo não terminou de fazer todas as suas ligações ainda."

Empurrei a porta para o sol de San Telmo. Junho em Buenos Aires é inverno. Mas a luz estava brilhante. Como uma história que apenas começou.

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