O Homem que Corre Mais Rápido que o Tempo
18 de dezembro de 2022. Estádio de Lusail. Mbappé estava no círculo central. França perdendo por dois gols, faltando dez minutos. O rosto dele — você se lembra — inexpressivo. Não um "derrotado" inexpressivo. "Estou prestes a fazer algo que todos vocês vão lembrar para sempre" expressão.
Publicado: June 6, 2026

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18 de dezembro de 2022. Estádio Lusail. Mbappé parou no círculo central. França perdendo por dois gols, dez minutos para o fim. O rosto dele — você se lembra — inexpressivo. Não um "derrotado" inexpressivo. Um "estou prestes a fazer algo que vocês vão lembrar para sempre" inexpressivo. Noventa e sete segundos. Dois gols. Hat-trick na final da Copa. França perdeu. Mbappé ganhou a admiração do mundo. Ao passar pelo presidente da FIFA no pódio, ele não olhou para o troféu. Olhou para frente. Não era tristeza. Era fome. Como um homem a quem dizem que o restaurante está lotado e ele pensa: Tudo bem. Vou comprar o restaurante.
Quatro anos depois, ele está de volta. Vinte e sete anos. Pico atlético. Na encruzilhada entre talento e ambição onde pouquíssimos humanos já estiveram — a encruzilhada de Pelé, a encruzilhada de Maradona. Doze gols em Copas, sexto maior artilheiro da história. Cinquenta e seis pela França, um atrás do recorde de Giroud. Se a França chegar às semifinais — e deveria —, Mbappé quase certamente se tornará o maior artilheiro da história do torneio. Os dezesseis gols de Klose são um número que resiste desde 2014. Não vai sobreviver a 2026.
Mas eis o que ninguém conta sobre ser Kylian Mbappé: a coisa que te torna imparável é a mesma que te torna ingovernável.
Eu estava em Madri em fevereiro, num bar de tapas perto do Bernabéu, quando um sócio-torcedor do Real Madrid chamado Carlos me disse algo que não consegui esquecer. "Mbappé fez quarenta gols nesta temporada", disse ele, espetando uma anchova. "Os torcedores estão divididos se foi uma boa temporada." Ele não estava brincando. Esse é o padrão. Quarenta gols, e os merengues estão de olho apertado. Bem-vindo ao paradoxo Mbappé — o único jogador do futebol mundial para quem uma temporada de quarenta gols gera questionamentos.
As críticas têm um formato familiar. Ele não pressiona o suficiente. Anda quando o time perde a bola. A provocação de Luis Enrique sobre "Michael Jordan" em Paris ainda ecoa — você pode fazer todos os gols, mas basquete tem cinco jogadores e futebol tem onze. No Real Madrid, uma temporada descrita pela imprensa espanhola como "repleta de controvérsia e divisão" produziu produção de elite e drama constante. A experiência Mbappé, em uma frase: você ganha tudo e paga por tudo.
Para a França, essa tensão é o torneio. Não porque Mbappé não seja bom o suficiente. Porque o elenco ao redor dele pode ser bom demais.
Ousmane Dembélé chega como atual vencedor da Bola de Ouro. Pense nessa frase por um momento. Dembélé — o homem que não conseguia ficar apto por cinco jogos seguidos no Barcelona, cuja carreira deveria ser um conto de advertência — acabou de ganhar o maior prêmio individual do futebol. Duas Champions. Uma temporada de produção implacável e aterrorizante. Ele não é mais o escudeiro de Mbappé. É seu par. E ninguém sabe como Mbappé se sente sobre isso.
Atrás deles: Michael Olise, o criador do Bayern de Munique que vê linhas de passe que não existem. Désiré Doué, dezenove anos, já fazendo defensores parecerem correr em melado. Bradley Barcola, Rayan Cherki, Marcus Thuram. O ataque da França não é apenas profundo. É vergonhosamente profundo. Lucas Hernandez, o defensor, chamou de "o melhor ataque do mundo". Ele estava subestimando. Esta é a melhor coleção de talento ofensivo montada por qualquer seleção desde o Brasil de 1970.
Deschamps tem um trabalho: não deixar os egos colidirem. É o que ele faz de melhor — a mão de ferro na luva de veludo, o homem que administrou o exílio e o retorno de Benzema, que construiu um meio-campo vencedor de Copa com um ponta convertido e um homem que corre como se estivesse carregando móveis. Mas ele nunca teve que administrar isso. Dois candidatos à Bola de Ouro no mesmo time. Um deles é o capitão. O outro vindo de uma temporada melhor.
Se funcionar — se Mbappé sublimar ego suficiente para pressionar quando necessário, se Dembélé aceitar o papel criativo secundário atrás do capitão, se Olise for usado corretamente como o abridor de fechaduras contra blocos baixos — ninguém bate na França. Ninguém. A defesa é absurda: Saliba, Upamecano, Konaté, Koundé. Maignan atrás. Tchouaméni e o eterno Kanté na proteção. Este é um elenco que poderia escalar dois times titulares diferentes e ambos chegariam às quartas.
Se não funcionar — se Mbappé andar, se Dembélé emburrar, se o vestiário rachar nas linhas de falha de Real Madrid contra Barcelona contra Bayern contra PSG — então a França se torna o conto de advertência mais caro da história das Copas.
O Grupo I é interessante: Senegal, Iraque, Noruega. O jogo contra a Noruega, Mbappé contra Haaland, é a partida de destaque da fase de grupos do torneio. Dois homens que são comparados desde adolescentes, finalmente se encontrando no palco da Copa. Haaland vai querer provar o que todo defensor da Premier League já sabe. Mbappé vai querer provar que existem níveis nisso.
Último torneio de Deschamps. Quatorze anos no comando. Três finais importantes. Uma Copa. O homem que capitaneou a França em 1998, que esteve envolvido nos maiores momentos do futebol francês por quase três décadas, faz sua despedida na América do Norte. A simetria é quase perfeita — sua carreira internacional começou numa Copa e vai terminar numa.
O elenco que ele deixa — quem assumir depois de 2026 — é a inveja de toda federação de futebol do planeta. Saliba com 25, Konaté com 27, Tchouaméni com 26, Mbappé com 27, Olise com 24, Doué com 20. Isso não é uma geração de ouro. É uma era de ouro. A França poderia — deveria — competir em 2030 e 2034 independentemente do que acontecer neste verão. A linha de produção que gerou Mbappé, Kanté, Pogba, Griezmann, Varane não desacelerou. Acelerou. Os subúrbios da Île-de-France sozinhos provavelmente poderiam montar uma seleção competitiva, e isso é meia piada.
Mas a história não se importa com linhas de produção. A história se importa com troféus. E a história da França com esse nível de talento é — como dizer isso delicadamente — complicada. O desastre de 2002, campeões eliminados na fase de grupos sem marcar um gol. O motim de 2010 na África do Sul, jogadores se recusando a treinar, a implosão tipicamente francesa. A Euro 2021, Mbappé perdendo o pênalti decisivo contra a Suíça após um torneio de tensão interna latente. O futebol francês tem dois modos: domínio imperial e autodestruição operística. Não há terceira opção.
É isso que torna 2026 tão fascinante — e tão aterrorizante para qualquer um vestindo o tricolor francês. O talento diz: campeões, obviamente. A história diz: cuidado com o que deseja.
Passei uma noite no 19º arrondissement no mês passado, assistindo a um torneio juvenil num campo de concreto encravado entre blocos de apartamentos. Uma dúzia de adolescentes, a maioria mais rápida do que qualquer um com quem joguei ou contra quem joguei, jogando com o tipo de liberdade que só existe antes de dinheiro, agentes e seguidores no Instagram entrarem na equação. Um senhor ao meu lado — argelino, talvez setenta anos, usando uma jaqueta da França de 98 desbotada até quase branca — assistiu em silêncio por vinte minutos antes de falar. "Viu o garoto com as chuteiras laranjas?" Eu assenti. "Ele tem doze anos. O Chelsea quer ele." Ele deu de ombros, o encolher de ombros de alguém que já viu essa história se repetir cem vezes. "Produzimos gênios. A questão é se conseguimos produzir um time."
Essa é toda a gestão de Deschamps em uma frase. Conseguimos produzir um time? Em 2018, a resposta foi sim — um time construído nos pulmões de Kanté e nas explosões de Mbappé e numa solidez defensiva que beirava a crueldade. Em 2022, a resposta foi quase — o elenco mais talentoso do torneio chegou à final e perdeu nos pênaltis, porque pênaltis não se importam com talento. Em 2026, a pergunta parece mais pesada do que nunca. Porque no papel, esta seleção francesa deveria ser melhor que a de 2018. Melhor que a de 2022. Melhor que qualquer seleção francesa que já existiu, incluindo a geração Zidane. E esse é o problema. No papel, a França tem sido a melhor seleção do mundo por cerca de seis anos. Papel não ganha Copas.
O Grupo I é interessante: Senegal, Iraque, Noruega. O jogo contra a Noruega, Mbappé contra Haaland, é a partida de destaque da fase de grupos do torneio. Dois homens que são comparados desde adolescentes, finalmente se encontrando no palco da Copa. Haaland vai querer provar o que todo defensor da Premier League já sabe. Mbappé vai querer provar que existem níveis nisso.
Último torneio de Deschamps. Quatorze anos no comando, três finais importantes, uma Copa. Ele merece um final de conto de fadas. Mas o futebol não escreve contos de fadas. O futebol escreve caos, e o caos da França — se vier — será espetacular.
Previsão: finalistas. E dependendo de qual Mbappé aparecer — o que fez um hat-trick numa final de Copa, ou o que andou enquanto seus companheiros pressionavam — ou eles ganham tudo ou voltam para casa se perguntando por que o elenco mais talentoso do mundo não conseguiu sair do próprio caminho.

