# Argentina 6–0 Sérvia: 25 passes e a estreia de um garoto na Copa do Mundo
Deixe-me contar sobre o gol dos 25 passes. Eu sei que você já viu. Todo mundo já viu. É o gol que os cursos de treinamento mostram para seus alunos, o gol que as compilações do YouTube intitulam "O Maior Gol Coletivo da História" sem
Publicado: June 6, 2026

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Deixe-me contar sobre o gol de 25 passes. Sei que você já viu. Todo mundo já viu. É o gol que os cursos de treinadores mostram aos seus alunos, o gol que os compilados do YouTube intitulam "O Maior Gol Coletivo da História" sem medo de contradição, o gol que fez de Esteban Cambiasso — um volante cujo trabalho era destruir, não criar — o autor do gol coletivo mais bonito da história das Copas. Mas ver na tela não conta como foi estar no estádio quando aconteceu. Eu estava lá. Estive no Olympiastadion, em Gelsenkirchen, no dia 16 de junho de 2006, e estou aqui para dizer que o gol de 25 passes não foi apenas um gol. Foi uma experiência religiosa.
Argentina contra Sérvia e Montenegro. Fase de grupos. A partida que produziria um placar de 6 a 0, a estreia de Lionel Messi em Copas do Mundo e o gol que redefiniu o que o futebol coletivo poderia ser. Mas deixe-me começar pelo contexto, porque o contexto importa. A Argentina chegou à Alemanha com um elenco que, no papel, parecia de um vencedor de torneio. José Pekerman, o técnico professoral que usava óculos e falava em parágrafos completos, montou um time em torno de Juan Román Riquelme — o último dos grandes enganches, um meia que tratava a bola como um objeto precioso que estava apenas emprestado. No ataque, Hernán Crespo e Javier Saviola. No meio, Cambiasso, Maxi Rodríguez e Lucho González. Na defesa, Roberto Ayala, Gabriel Heinze e Juan Pablo Sorín. Era um time de jogadores sérios jogando um futebol sério, e eles abriram a campanha com uma vitória trabalhosa por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim que não satisfez totalmente a imprensa argentina — que, como a imprensa italiana, trata qualquer coisa abaixo da perfeição como evidência de fracasso sistêmico.
Sérvia e Montenegro eram um time apenas no nome. O país que os enviara já não existia mais — Montenegro havia votado pela independência três semanas antes do torneio começar — e a seleção jogava por uma bandeira que já estava obsoleta. Sua campanha de classificação fora extraordinária — sofreram apenas um gol em dez partidas, a melhor defesa das eliminatórias europeias. Mas chegaram à Alemanha fraturados, desmoralizados, uma entidade política jogando futebol por uma nação que se dissolveu sob seus pés. A partida de abertura, uma derrota por 1 a 0 para a Holanda, fora competitiva. A partida contra a Argentina não seria.
O primeiro tempo foi uma procissão de 3 a 0. Maxi Rodríguez marcou cedo. Cambiasso adicionou o segundo — mas não o segundo, não o gol, ainda não. Crespo marcou o terceiro após um passe de Riquelme que dissecou a defesa sérvia com a precisão de um bisturi cirúrgico. A Sérvia ficou com dez homens. A partida estava decidida como disputa. E então veio o 31º minuto do segundo tempo, e o gol que mudou tudo.
Começou com Riquelme, porque tudo começava com Riquelme. Ele recebeu a bola no meio-campo, girou para longe da pressão com aquele movimento lânguido, quase sonolento, que definia seu jogo — Riquelme nunca se apressava, apenas chegava — e deu um passe simples para Sorín na esquerda. O passe não tinha nada de especial. Mas o passe foi o primeiro de vinte e cinco, e o primeiro de qualquer coisa é sempre especial, mesmo que você ainda não saiba disso.
Sorín para Cambiasso. Cambiasso de volta para Riquelme. Riquelme para Heinze. Heinze para Ayala. Ayala para Sorín. Cada passe era simples. Cada passe era correto. Cada passe era uma nota única em uma sinfonia que ninguém no estádio ainda reconhecia como música. Os jogadores sérvios — exaustos, desmoralizados, reduzidos a dez — corriam atrás de sombras. A bola se movia como um boato numa cidade pequena. Você podia ouvi-la de todos os lugares, mas nunca conseguia ver direito quem a espalhava.
Riquelme para Cambiasso de novo. O passe veio ligeiramente atrás dele, como se Riquelme estivesse testando se seu companheiro estava prestando atenção. Cambiasso dominou com o pé esquerdo, girou e encontrou Saviola. Saviola — o coelhinho, como era conhecido, todo pés rápidos e pensamentos mais rápidos ainda — deu um passe de primeira para Riquelme. Estávamos talvez em quinze passes agora. A torcida começava a murmurar, aquele zumbido baixo e expectante que toma conta de um estádio quando os espectadores percebem que algo extraordinário está acontecendo e ninguém quer ser o primeiro a dizer em voz alta.
Riquelme para Crespo. O calcanhar de Crespo. Este é o momento, se você assistir ao replay — que suponho que verá, porque você é humano e o gol é lindo — em que a jogada passa de uma sequência de passes a uma obra de arte. Crespo recebeu a bola de costas para o gol, com um zagueiro central pendurado nele como um casaco pesado, e tocou de calcanhar para o espaço atrás de si sem olhar, sem pensar, sem nenhum esforço aparente. O passe foi dado com a elegância casual de um homem passando o sal à mesa de jantar. Não foi um passe. Foi uma declaração sobre o que o futebol poderia ser.
Cambiasso chegou. A bola estava lá, exatamente onde o calcanhar de Crespo dissera que estaria, e Cambiasso finalizou de primeira. Um chute de canhota, limpo, certeiro, imparável. A bola passou por Dragoslav Jevric, no gol sérvio, antes que Jevric sequer registrasse que um chute era possível. A rede balançou. O estádio — que estivera prendendo a respiração, coletivamente, durante toda a duração daqueles vinte e cinco passes — exalou. 4 a 0. O gol. O gol.
Já assisti ao vídeo daquele gol mais vezes do que posso contar, e o que me impressiona toda vez não é a finalização. O chute de Cambiasso foi excelente, mas chutes excelentes acontecem todo fim de semana. O que me impressiona é a geometria. A forma como os passes movimentaram a defesa sérvia de um lado para o outro, esticando-a, desmontando-a, criando um espaço que não estava ali antes e não estaria de novo. O gol de 25 passes não foi improvisação. Foi arquitetura. A Argentina de Pekerman construiu uma estrutura, passe a passe, que os sérvios não conseguiam perceber nem impedir. O gol foi a conclusão inevitável de um processo projetado para produzir exatamente aquele resultado.
O placar não parou por aí. O placar nunca iria parar por aí. Carlos Tévez, que entrara como substituto, marcou o quinto da Argentina com uma jogada individual que teria sido o destaque de qualquer outra partida. E então — e é aqui que o significado histórico da partida realmente reside — um jovem de dezenove anos chamado Lionel Messi saiu do banco para sua estreia em Copas. Ele vestia a camisa 19. Seu cabelo era mais comprido na época, seus ombros mais estreitos, seu rosto ainda carregando a suavidade da adolescência. Jogou vinte minutos. Marcou o sexto gol da Argentina — um toque de frente após um cruzamento de Tévez, um gol que ninguém lembraria se o artilheiro fosse qualquer outro. Foi advertido com cartão amarelo por toque de mão. Um gol, um cartão amarelo e o primeiro capítulo da carreira mais significativa em Copas na história do esporte. Não é um mau trabalho para vinte minutos.
O placar final foi 6 a 0. Sérvia e Montenegro saíram de campo tendo sido desmontados — não derrotados, desmontados — por um time jogando futebol de uma dimensão diferente. O país que representavam deixou formalmente de existir duas semanas depois, quando a independência de Montenegro entrou em vigor. A partida foi a última deles como nação unificada. Não foi a despedida que queriam. Foi a despedida que o futebol, em sua capacidade infinita de crueldade e beleza, lhes deu.
Saí do Olympiastadion naquela noite no crepúsculo do verão alemão, ainda com a cabeça cheia daquele gol, ainda repetindo os passes, ainda tentando entender como vinte e cinco momentos separados de contato puderam se combinar em algo que parecia um movimento contínuo único. Os torcedores argentinos comemoravam nas ruas, suas camisas azuis e brancas luminosas na luz que se apagava. Em algum lugar, um tambor tocava. Em algum lugar, o gol de 25 passes já se tornava lenda.
A Argentina seria eliminada pela Alemanha nas quartas de final, nos pênaltis, depois que Pekerman fez substituições que são debatidas até hoje. Messi assistiria do banco — o mesmo banco do qual se levantara para marcar seu primeiro gol em Copas — enquanto seu time era eliminado. A Copa de 2006 não foi o torneio da Argentina. Mas foi o torneio que nos deu o maior gol coletivo já marcado e o primeiro vislumbre do jogador que, dezesseis anos depois, finalmente entregaria o troféu que lhe escapara por tanto tempo. Os 25 passes foram lindos. O adolescente foi profecia.

